jeudi 16 décembre 2010

Lu et approuvé!

Sobre a entrada em vigor do Acordo Ortográfico.
O ministro da Presidência anunciou que o Acordo Ortográfico será aplicado já no próximo ano lectivo. O tal acordo que não contou com a opinião dos cidadãos; o mesmo Acordo que foi feito por políticos à revelia do povo soberano. (...) A língua é património de um povo, é ofensivo tratar-se este património apenas na lógica do negócio.
De igual forma, estas decisões não podem ser tomadas à revelia do povo falante da língua. Os portugueses não foram consultados, e como o silêncio em Portugal é de ouro, também foram poucos os que se manifestaram relativamente ao Acordo. Note-se que os representantes eleitos têm legitimidade para tomar decisões, afinal de contas vivemos numa democracia representativa. Todavia, há decisões que, pela sua natureza, merecem ser alvo de escrutínio directo dos cidadãos. O facto é que, enquanto vivermos sob a ditadura do silêncio voluntário e alimentarmos essa ditadura, ninguém vai querer saber a nossa opinião.
In DN, 16/12/2010

mercredi 15 décembre 2010

Singularidades da nossa História

Por aderir completamente ao combate travado pela minha amiga Maria José Abranches pela defesa de património mais evidente que o nosso país possui, publico e convido-os a ler atentamente o artigo que segue.
Aurélio Pinto


Singularidades da nossa História
Há duzentos anos, a 27 de Setembro de 1810, o exército francês, pela terceira vez invasor, agora sob o comando de Masséna, era derrotado na batalha do Buçaco pelas forças aliadas anglo-portuguesas, comandadas por Wellesley. Era o princípio do fim das invasões francesas, iniciadas em Novembro de 1807, em território nacional. Mas apesar da derrota dos exércitos napoleónicos, a situação de Portugal manteve-se por longo tempo extremamente precária. Enquanto o continente, devastado e exangue, permanecia sob o jugo dos nossos “aliados” britânicos e se debatia com uma grave crise política, económica e financeira, a família real e a corte, dilapidando sem contar o erário público, continuavam no Brasil, para onde tinham fugido.

Recorde-se que, contrariamente aos outros monarcas europeus que Napoleão pusera em perigo, a família real portuguesa se refugiou numa das suas colónias, num continente afastado, o que significava uma longa e imprevisível travessia do Atlântico. Recorde-se ainda que com a família real, a corte, o governo, os funcionários, respectivos familiares e outros – foram cerca de 10.000 os que em 1807 abandonaram o país – seguiu para o Rio de Janeiro o tesouro real, milhares de documentos, livros e toda a sorte de objectos valiosos. Tudo sob escolta britânica, já que a Inglaterra era favorável a esta opção de que veio a tirar grande proveito.

Convém salientar que esta opção americana tinha já raízes antigas e defensores eminentes. O Padre António Vieira, no reinado de D. João IV, sonhara fazer do Brasil a sede do Quinto Império, e esta ideia de assim deslocar o centro do reino, menosprezando o velho Portugal – a mais antiga nação europeia – permaneceu viva, sendo depois retomada no tempo de D. João V e de novo pouco antes de o futuro D. João VI assumir a regência do reino. Com efeito, em 1798, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, que viria a “dirigir o novo governo de D. João no Rio”, num discurso proferido na corte, disse “que «os domínios na Europa» já não eram «a capital e centro do Império Português». Reduzido a si mesmo, concluía, Portugal em breve seria «uma província de Espanha».” [1]

As singularidades da nossa História não se limitaram contudo à fuga da corte para o Brasil. Este facto significou também um desenvolvimento e um prestígio consideráveis para a colónia privilegiada, a ponto de, em 1815, ser equiparada à metrópole, com a publicação de uma Carta de Lei instituindo o “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”. Mais, em 1817, é para o Brasil que viaja D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, filha de Francisco I, para aí confirmar a cerimónia do seu casamento com D. Pedro, herdeiro do trono português. É ainda no Rio que terá lugar a aclamação de D. João VI, em 1818, dois anos após a morte de sua mãe, D. Maria I. Finalmente, pouco depois de, a 4 de Julho de 1821, D. João VI, embora contrariado, se ter visto obrigado pelas circunstâncias a regressar a Portugal, é o próprio herdeiro do trono português, D. Pedro, que proclama a Independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, sendo pouco depois aclamado imperador, a 12 de Outubro.

Mas estas singularidades da nossa relação histórica com o Brasil ainda não se esgotaram. Os saudosos da vastidão, do prestígio e das riquezas fáceis do Império perdido descobriram agora que a língua portuguesa é o último continente a explorar e de novo se voltam para o Brasil onde julgam ter encontrado a solução. Assim, com o Acordo Ortográfico de 1990 – que tem vindo a ser defendido e insidiosamente imposto por intelectuais, políticos e media portugueses, que se comportam como “os donos da língua” e se mantêm surdos aos protestos dos seus mais conceituados concidadãos - Portugal, que levou a sua língua a todo o planeta, opta por abdicar da sua própria ortografia, para adoptar, no essencial, a ortografia brasileira. A justificação apresentada para tal é a necessidade imperiosa de envolver o Brasil na “internacionalização” do português, o que significa, de facto, promover a norma brasileira, aliás marcada por arcaísmos que na sua evolução o português europeu abandonou. Deste modo, por incúria, ignorância, preguiça e falta do sentido da própria dignidade, estamos prestes a entregar ao Brasil o destino da nossa língua, o português de Portugal, com todas as consequências nefastas, facilmente previsíveis, que daí advirão. Se o país continuar a não reagir e se a conspiração do silêncio e a auto-censura instaurada nos media continuar a impedir a expressão das vozes discordantes e o debate aberto e sério que se impõe, seremos mais uma vez “o único país europeu” nesta ridícula e suicida situação.

Abro aqui um pequeno parêntese para recordar que o português, uma das línguas românicas da Europa, derivadas do latim que o Império Romano trouxe às regiões que estiveram sob o seu domínio, surgiu, desenvolveu-se e cresceu acompanhando a história da formação do próprio reino de Portugal, cujo território se estendeu até ao Algarve aquando da conquista de Faro, Albufeira, Porches e Silves, em 1249, por D. Afonso III. “A individualidade da língua portuguesa começou a desenhar-se no domínio do léxico e pode remeter-se para uma data próxima do século VI. (…) Os dois primeiros textos escritos em português – a «Notícia de Torto» e o «Testamento» de D. Afonso II – datam de 1214-1216.”[2]

A partir da conquista de Ceuta, em 1415, Portugal sai do espaço europeu e lança-se na longa e arrojada epopeia dos Descobrimentos, que espalhará o português pelos vários continentes. A nossa língua, “em finais do século XVI e durante o século XVII, além de ser falada na América (Brasil), era também utilizada como língua geral do litoral africano e como língua franca (indo-português e malaio-português conforme as regiões) nos portos da Índia e do sudeste da Ásia. Europeus e asiáticos comunicavam em português em extensas regiões da Índia que incluíam Goa, Damão, Diu e Ceilão, em Malaca, nas ilhas de Samatra e Java (antiga Batávia) e na ilha de Timor. No Japão, Tailândia (antigo Sião) e na China também a língua portuguesa serviu nas relações políticas, comerciais e religiosas.”[3]

Desta extraordinária aventura resultou que a língua portuguesa ainda hoje perdura, como língua materna, em Portugal e no Brasil e como língua oficial em Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor-Leste, os países da CPLP, e ainda em Macau. Falta acrescentar as importantes comunidades de emigrantes disseminadas pelo vasto mundo e algumas bolsas de pequenos grupos sociais que resistem, como se verifica em Goa, por exemplo.

Em todos estes países e regiões, com excepção do Brasil, a norma padrão adoptada como referência foi sempre a do português europeu, estando em vigor a ortografia consagrada pelo Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro de 1945 – que o Brasil não respeitou – mais as pequenas alterações de 1973. O novo Acordo e as negociações conduzidas pelos seus defensores estão em vias de subverter totalmente esta situação que tem raízes históricas evidentes e irrefutáveis. De qualquer modo, somos todos povos soberanos e independentes e cabe a cada um de nós escolher o seu destino.

Vale a pena evocar algumas declarações dos defensores do novo Acordo Ortográfico, por recordarem as dos conselheiros da corte referenciados acima, no terceiro parágrafo, defendendo a transferência do governo do reino para o Brasil.

Começo pelo actual Embaixador português em França, antigo embaixador de Portugal em Brasília: «Seixas da Costa diz que a língua portuguesa não tem futuro “sem uma relação frutuosa entre Portugal e Brasil e sem uma política de articulação entre os dois países”. (…) Esta deve ser “uma acção conjunta em que todos nós temos que nos empenhar para a projecção do português”, diz o embaixador, que acrescenta que o Acordo Ortográfico serve para “diminuir as diferenças para uma acção conjunta e o empenhamento conjunto dos países”.» [4]

O anterior Ministro da Cultura, Pinto Ribeiro, em entrevista ao ”Público” (04/02/2009), como justificação para o que chama “universalização ortográfica” declarou: “Nós afirmamo-nos enquanto identidade e enquanto povo através da língua que falamos e da expansão que demos a essa língua. Neste momento, o número de falantes do português andará pelos 230, 240, 250 milhões. Mas desses 250 milhões, 200 milhões são brasileiros. E eles eram apenas 70 milhões em 1960. De 1960 para 2008 triplicaram, e isso significa fazer 130 milhões de falantes do português, mais do que nós fizemos em todo o nosso passado.”

A mesma individualidade teria dito (“Público”, 19.03.2008) que a inoperância da Academia das Ciências, ”nunca permitiu a fixação da língua portuguesa num dicionário”, contrariamente ao que aconteceu em França ou em Espanha. “Não tendo Portugal criado um estudo normativo, vemo-nos forçados a criar leis.”

Rui Tavares disse no “Público” de 9/6/2008: “Porque é a estratégia correcta, e tão simples, que se resume numa frase: consiste em envolver o Brasil num esforço colectivo de promoção da língua, em que cada país lusófono conta institucionalmente o mesmo.”

Para não me alongar mais nas citações, recordo apenas Carlos Reis, num texto intitulado “Rápido no gatilho” (“Público, 30/05/2008), em que, falando do seu “optimismo moderado quanto ao potencial do português, no que à sua afirmação internacional diz respeito”, rejeita o “triunfalismo” baseado nos “milhões de falantes” e acrescenta: “Tão excessivo como aquele triunfalismo só conheço o bafiento nacionalismo ortográfico dos derradeiros gauleses que gostariam de manter o português encerrado na aldeia remota em que ele nasceu.”

Em conclusão, no século XIX, como vimos, Portugal esteve em risco de desaparecer, mas soube resistir e sobreviveu, mesmo tendo perdido o Brasil. Está agora nas nossas mãos – de cada um de nós – impor a opção que nos dignifica e respeita a nossa identidade, a nossa História e a língua que herdámos dos antepassados e temos a obrigação inalienável de transmitir, na sua integridade, e se possível mais rica e mais bela, aos nossos descendentes próximos e futuros: recusemos por todos os meios este vergonhoso Acordo Ortográfico!
Lagos, 06/12/2010

P.S: A Resolução do Conselho de Ministros, de 09/12/2010, acelerando a entrada em aplicação do A.O., no ensino (Set. 2011) e na Administração (Jan. 2012), não invalida em nada nem esta análise nem este apelo, pelo contrário, torna-os ainda mais prementes.

Por Maria José Abranches – Professora aposentada do Ensino Secundário (Português e Francês) Ex-Leitora na Universidade de Paris III
[1] Patrick Wilcken, “Império à deriva – a corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821”, Civilização Editora, 11ª edição, Fev. 2008
[2] “Gramática da Língua Portuguesa”, Maria Helena Mira Mateus e outras, Ed. Caminho, 1989
[3] ibidem
[4] in “Público”, 16/03/ 2010

dimanche 12 décembre 2010

É uma vergonha que haja fome em Portugal!

Não tenhamos dúvidas, é mesmo uma vergonha! Qualquer português que se preze não pode ficar indiferente a tal situação. Mas felizmente a maior parte deles não tem culpa nenhuma disso, muitos até se esforçam para evitar que tal aconteça, outros ajudam mesmo sem saber, estou a pensar em todos aqueles que com as remessas que enviam regularmente, contribuem largamente para melhorar a vida dos seus compatriotas.
Mas os esforços individuais não chegam para evitar os problemas causados por uma má gestão do País que se vem arrastando há muitos anos.
A desregulamentação económica, para facilitar a vida das empresas, não evitou que a crise europeia de 1993 provocasse em Portugal um enorme aumento do desemprego.
Durante os anos faustos em que a Europa despejou rios de dinheiro em Portugal, o aspecto do país mudou imenso, mas foi quase exclusivamente a rede rodoviária que absorveu tal maná. Por outro lado a agricultura passou ao lado da repartição; enquanto algumas manadas de gado iam de camião de prado em prado, para justificar empreendimentos fictícios, os terrenos ficavam por cultivar, e a criação de gado continuava na mesma. Muito mais real era o benefício daqueles que aproveitavam dos bem-vindos capitais para empreendimentos pessoais cujos benefícios os foram enriquecendo. Esses hoje não têm fome! Durante esses anos, o que é que foi feito para preparar o futuro da economia de Portugal? Desenvolvimento das pequenas e médias empresas? Agricultura? Pescas? Formação? Nada! Inaugurar troços de auto-estradas em excesso nunca preparou o futuro de ninguém. Sua Excelência o Presidente da República está envergonhado porque há portugueses com fome, só? Mas o facto de durante quase 17 anos ter governado o País de uma maneira ou de outra, sem ter visto chegar as crises ou sem ter tomado precauções para as evitar, sem criar as condições para que os portugueses ficassem ao abrigo de situações de precariedade extrema como a que se vive actualmente, não é razão para vergonha! Pelo contrário, é experiência positiva que será posta ao serviço de Portugal se for reeleito, certamente com os votos daqueles que vão comer os restos dos restaurantes!
Portugal precisa muito de quem ajude, mas convém não esquecer que cada um tem de se ajudar a si memo, e será esse o supremo sacrífico, pois será necessário mudar de modo de vida. Será preciso que cada um se convence que só pode gastar aquilo que tem, senão é a falência garantida, e isto tanto é válido para o individuo, como para uma família, ou empresas e mesmo o Estado. Como é que para além da disciplina pessoal se podem obter resultados positivos, sem recorrer por exemplo ao FMI? A título individual ou familiar, não se deixando encandear pelo brilho de pseudo facilidades que normalmente conduzem ao desastre. As empresas devem evitar de só pensar nos ganhos de produtividade, e admitir que se os trabalhadores perderem o poder de compra mais tarde ou mais cedo não há quem compre o produto. O Governo tem o dever de propor, explicar e cumprir soluções e leis realistas e de se assegurar que cada um as respeita.
O cidadão deve estar no centro das preocupações, mas também deve ter a preocupação de exercer os seus deveres de cidadão: de se informar, de participar na vida cívica da Nação, de especificar a sua opinião, de votar... para escolher aqueles que nos governam, para evitar de um dia talvez, ter de andar a comer os restos dos restaurantes e encher algum Presidente de vergonha!
Aurélio Pinto