mercredi 19 janvier 2011

«Acuso a RTP»

É por mais uma vez estar de acordo com a autora que volto a publicar um dos seus textos, que quanto a mim reveste a maior importância para o futuro do único bem que é realmente nosso e que ninguém devia estar autorizado a roubar-nos, a nossa Língua!
Aurélio Pinto
«Acuso a RTP» (Carta ao Provedor)

«um povo corrompido que atinge a liberdade tem a maior dificuldade em mantê-la».
Maquiavel (in Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão)

No exercício dos meus direitos/deveres de cidadã, repudio e condeno energicamente a precipitação da RTP na aplicação do novo Acordo Ortográfico, considerando que esta iniciativa viola o seu “Código de Ética e de Conduta”, que estipula: “(…) à RTP, enquanto concessionária dos serviços públicos de rádio e de televisão, estão cometidas especiais obrigações que vão muito além de uma dimensão jurídica: a sua actuação deve estar, também, enquadrada numa dimensão ética e comportamental irrepreensível”; e falando da sua “missão” acrescenta: “O serviço público de media (…), prestado pela RTP deve constituir uma referência para a população (…)”.

Esta antecipação da RTP, relativamente à entrada em aplicação do Acordo na Administração central, que o governo decidiu para Janeiro de 2012, colide a meu ver com o sentido das responsabilidades que deveria ser o seu, dada a abrangência e influência universal de que é detentora. A imagem que assim passa para o mundo não credibiliza a nossa língua.

Acuso também a RTP de não ter promovido o debate e a informação independente e plural imprescindíveis no tratamento de uma questão que põe em causa a nossa mais genuína e profunda identidade e nos diz a todos respeito. A nossa língua – português europeu – não é feudo dos políticos nem dos interesses económicos, é do povo português, que tem uma longa e antiga História que o honra e que convém não esquecer.

Acuso portanto a RTP de cumplicidade no silêncio, na opacidade, na pressa e na prepotência que tem rodeado a imposição deste Acordo, inúmeras vezes denunciado pela comunidade científica como desnecessário, inútil, perigoso e desprestigiante.

Lamento ainda que tanto dinheiro público se tenha de repente encontrado para financiar a promoção do Acordo de 1990, quando o Estado nunca teve meios nem a vontade política necessária para promover a investigação, o ensino e a difusão da nossa língua, no país, junto dos emigrantes e luso-descendentes e no estrangeiro.

Termino citando o prefácio ao “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea”, da Academia das Ciências de Lisboa, Ed. Verbo, 2001, que só o apoio da Fundação Gulbenkian tornou possível:
“A Academia das Ciências de Lisboa deve ser talvez, de todas as suas homólogas europeias fundadas no século XVIII, uma das poucas que, na sua já longa existência de 222 anos, não conseguiu publicar um dicionário completo do seu próprio idioma.”
(José Vitorino de Pina Martins, Presidente da Academia das Ciências, 15/12/2000)

Texto da mensagem enviada, em 17/01/2011, para o Provedor do Telespectador e para o Provedor do Ouvinte, através do formulário de contacto por e-mail inserido no sítio da RTP.
Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

[1] Nota da Autora: é com este título que o texto figura no sítio da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, que continua a recolher subscrições, em impresso próprio: http://www.ilcao.cedilha.net

dimanche 9 janvier 2011

Combustão lenta

No rescaldo do primeiro dia oficial de campanha não posso deixar de reparar num certo número de afirmações, sendo que algumas delas me põem quase sem respiração!
Logo para começar fico sempre admirado quando vejo um gráfico de sondagem como o do Público de hoje. As perguntas eram: está interessado pelas Eleições Presidenciais? Vejam só as respostas: 10%, muito interesse; 40% algum interesse; 60% não interessado! Como é que num país em crise, onde toda a gente chora a sua má sorte (mesmo os que têm sorte a mais) ainda há 60% dos cidadãos que não estão interessados pelas Eleições Presidenciais? Constato que não são só os emigrantes que têm falta de educação cívica os primos que ficaram pela terra são feitos da mesma matéria! Que desespero!
Depois vêm os comentários dos candidatos e lá vêm as frases mais disparatadas, as maiores contra verdades, os cinismos, as malícias e as calúnias. Só porque as pessoas se desinteressam é que alguns políticos se podem permitir tais abandonos; se houvesse mais crítica, outro galo cantaria.
Quando Fernando Nobre põe em pé de igualdade os candidatos Cavaco Silva e Manuel Alegre, para mim é como se estivesse a dizer ” estou aqui para atrapalhar (por encomenda?), pois de política não percebo patavina”.
Cavaco dirige-se aos jovens para fazer uma política diferente, é claro que com o candidato da “estabilidade passiva” a política vai ser diferente claro, mas diferente daquela que devia ser.
Diz ainda que não se deve desperdiçar o dinheiro que a Europa nos atribui. De acordo, acreditem na sua experiência, toca a continuar a alcatroar o país, que do seu tempo ainda ficou espaço para mais estradas e isso é obra que se vê!
Mas além disto o presidente candidato a “bis repetita” não quer falar das escutas; não quer falar das acções; não quer falar do FMI... na realidade o melhor é ficar calado, disso tem ele dezassete anos de experiência.
Talvez Maria de Medeiros tenha razão, com tanto silêncio qualquer dia estamos todos sob o domínio da Espanha... quando não há Rei é o que acontece!
Em 1984 alguém me disse, perante a minha apreensão “deixa lá com cavacos não se fazem grandes fogueiras”, mas não contava com a combustão lenta. Dezassete anos é muito tempo.
Aurélio Pinto, 10/01/2011