Paris - 1/12/2009 - Li há dias no DN um artigo engraçado de Céu Neves, intitulado “Futebol é o grande factor de integração dos emigrantes”. Este artigo surge após a apresentação no Instituto de Ciências Sociais (ICS) em Lisboa, dos resultados iniciais do primeiro estudo comparativo sob o tema : “Diasbola”, coordenado por Nina Clara Tiesler, cidadã alemã casada com um português e que vive em Portugal há nove anos, segundo a autora.
Só achei engraçado o artigo, pois as conclusões do estudo parecem-me pelo menos fantasistas, injustas e perigosas.
Todos os portugueses residentes no estrangeiro sabem que poucos são os nossos compatriotas que vivem “lá no quintal” que percebem, ou melhor, que querem perceber o que se passa nas comunidades; como é que lá se vive, quem somos nós. Alguns, mas nem todos, sabem que somos capazes de enviar remessas e que isso é importante para o País.
Não sabem que muitos de nós estamos mais ao corrente do que se passa por lá do que a maior parte deles.
Não sabem que o nosso patriotismo é exacerbado pela lonjura e pela saudade e não sabem, pelas mesmas razões, o que os portugueses de fora têm feito para “integrar” Portugal nos países em que residem.
Certamente saberá bastante menos sobre estes sentimentos e esforços a Senhora Dona Nina Clara Tiesler (que deve ser Doutora, não ponho em dúvida), pois vive em Portugal há pouco tempo e estuda muito assuntos relacionados com os muçulmanos e o Islão em Portugal, o que tem pouco ou nada a ver com a integração dos portugueses nos países de acolhimento!
Dizer que o futebol “fez mais no estrangeiro do que as associações, a tradição ou a língua e que se tornou no elemento mais importante de integração dos imigrantes”, é um disparate que revela uma falta de conhecimentos do que se passa nas comunidades.
Ninguém pode esquecer o trabalho incansável de milhares de dirigentes associativos que por esse mundo fora têm posto Portugal em cena de há dezenas de anos a esta data, em parceria com as entidades de acolhimento. Centenas de grandes associações e federações de associações, fizeram mais para aproximar os portugueses dos países de acolhimento que os Governos podiam ter feito ainda que tivessem vontade de o fazer. Eventos culturais – festivais de teatro, de cinema, o salão do Livro de Paris com Portugal convidado de honra festas com 30000 pessoas na praça pública, etc. -, desportivos, cívicos, políticos, religiosos, só em França são milhares de dias por ano.. e o Eusébio, o Figo ou o Cristiano Ronaldo não participaram em nada!
Se já viram um Portugal-França no estádio de França, ou um Benfica-PSG, no Parc des Princes (já viram senhores científicos?) ainda que sejam jogos amigáveis, vêm os adeptos Franceses com vontade de engolir (não ouso escrever o verbo mais utilizado...) toda a comunidade portuguesa, com desdém quando ganham, com rancor quando perdem.
Note que os portugueses que também não têm vontade de ser (enrab..., perdão) engolidos, tornam-se discretos ao perder ou “gozões” quando ganham. No dia seguinte nos empregos o melhor é estar calado, a bem da integração!
É certo que o futebol tem uma linguagem própria e universal, mas o mais reles dos “hooligans” saberá afirmar que só o seu clube ou país é que é bom, e quem disser o contrário é o inimigo a desintegrar, como confirmam todas as polícias do mundo.
É verdade que é impossível dissociar a população portuguesa do futebol (Monsieur de La Palice não diria melhor) e a inglesa, a francesa e a argentina e todas as outras, o futebol é o “maior” desporto do mundo, mas cada um torce pelo seu campo.
Ainda me recordo do que disse um ex-ministro do desporto de Portugal na véspera de um jogo para o campeonato do mundo entre Portugal e Angola: “Angola é um país irmão, mas Portugal tem de ganhar e por muitos!”, claro!
O Futebol é um orgulho para todos os que dele gostam (há quem não goste nada, só em minha casa são dois terços), os emigrantes não são excepção, são portugueses como os demais (sabiam?).
Mas o Futebol só é um factor de orgulho para todos aqueles que pertencem aos clubes ou países que ganham, tanto mais que é acessível a todos, a informação sobre o futebol do nosso país atinge todas as populações em quantidades industriais, assim acontecesse também com a informação cívica, política ou cultural para ajudar a abstenção a diminuir.
Pergunta a investigadora, coordenadora do estudo que “se os portugueses levam na bagagem o bacalhau, a cerveja, o café, os ranchos, como é que podiam deixar o futebol?”
Isto é linguagem do passado, está desfocada. Os portugueses levam na bagagem a cultura que têm, que têm todos os portugueses à partida; depois adicionam-lhe outra cultura e ficam com uma cultura maior! Esta é a imagem que os portugueses transmitem aos filhos, que por sua vez tendo a possibilidade de estudar e evoluir, acabam geralmente por aderir e tentar desenvolver. O bacalhau vem do mar do norte, o resto há em todo o lado e todos ainda gostam de consumir.
Depois dizem que os lusodescendentes já não estão habituados a essas coisas. Boa! Sabem que à volta de Paris há várias “boites” (dancings) portuguesas e que estão sempre cheias de lusodescendentes jovens (também há Lusodescendentes de uma idade mais avançada...), que bebem (muita) cerveja e não só e alguns deles até pertencem à Academia do Bacalhau?
Quanto aos ranchos folclóricos, mesmo não sendo amador, nem perito, posso dizer-lhes que são constituídos na grande maioria por crianças e adolescentes e muitas vezes INTEGRAM franceses.
Bem sei que toda a tese se defende, mas francamente para quê deitar mais poeira nos olhos daqueles que por vezes não querem, não podem ou não sabem ver ?
Antes do bacalhau, (a cerveja foram os alemães), do café etc... os portugueses levaram para o Mundo a pimenta, o chá... a cultura do próprio universo. Elementos não do século passado mas de há muitos séculos e são esses elementos que as associações desde a década sessenta, se esforçam por mostrar aos países que as acolhem.
E desminto, muitos portugueses das novas gerações falam melhor português que os pais, que viveram uma época em que andar amordaçado era o dia a dia no nosso país.
Muitos das novas gerações estão implicados na vida associativa (por exemplo, no futebol... e nos ranchos, onde os velhos já não podem) e na política.
Eu penso que seria melhor que acabassem de “estudar” as comunidades, pois com estudos assim, qualquer dia ninguém sabe do que se trata e ainda acabamos por ver o Corpo Diplomático equipado de azul, verde ou vermelho a “chutar cada um para onde está virado” .
...
Ontem o Benfica perdeu três pontos, eu estou triste, mas os Franceses estão-se nas tintas!
É por isso que chamaria ao dito estudo: “DISPARÁBOLA”... disparates sobre a bola numa grande parábola sobre a diáspora!
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