mardi 31 décembre 2013

Pretensão e água benta...

Agosto de 2013

Acabo de ler o número 42 do Lusopress Magazine.
É sempre agradável saber notícias de gente de valor e ver caras conhecidas em situação de sucesso, sinal que quem ajuda o destino, mesmo sendo alguns de condição inicial modesta, acaba sempre por alcançar patamares interessantes, por vezes mesmo para além dos seus próprios sonhos.
Nas comunidades, contam-se por milhares pessoas de altíssimo nível em todos os domínios, do sector empresarial ao científico, passando pelo artístico, literário, político, eclesiástico e... desportivo, mas esses são conhecidos de todos !
Considero pois louvável a iniciativa deste magazine ao dar luz aqueles que são verdadeiros exemplos. Pena é que não cheguem as páginas para os mostrar todos e os meios para os encontrar, presumo.
Posto isto deparei na página 64 com uma crónica de opinião assinada por Filipe Carvalho que me deixou perplexo. Estou globalmente de acordo com a sua análise inicial. É um facto que a situação catrastófica em que o país se encontra, acentua a necessidade de êxodo dos jovens portugueses e que, sendo eles hoje mais instruídos, o perfil dos emigrantes é diferente agora, daquele dos emigrantes dos anos 60.
Não quer isto dizer porém, que só os analfabetos zarparam para outros horizontes naqueles tempos. Na altura havia três tipos de emigrantes potenciais : os que não tinham trabalho ou não ganhavam suficientemente para comer ; os que eram contra a política e (ou) não queriam participar nas guerras de África, (neste número já era grande a percentagem de « instruídos »). Por último os intelectuais e artistas que sufocavam com a falta de liberdade e por vezes juntando às suas razões os mesmos problemas que os outros. Todos estes emigrantes tiveram de facto de fazer esforços para se adaparem ao país de acolhimento o que levou à criação de uma linguagem « transversal » que « deu no goto » dos conterrâneos quando os ouvem falar durante as férias. Note-se que graças a isso, muita gente das nossas aldeias ficou a saber (mais ou menos), como se diz cerveja, cenoura ou aquecimento etc. em francês, o que sempre contribuiu para aumentar a cultura local...
Quanto aos novos emigrantes é certo que são mais instruídos que antigamente, mesmo se excluirmos os « diplomados a martelo » e os  « auto-diplomados », Portugal deu, felizmente, um assinalável salto quantitativo na educação.
Lamento no entanto que tantos jovem diplomados tenham dado tão maus gestores e tão maus políticos, que têm sido incapazes de evitar que novas vagas de emigração vão existindo. Talvez por imaginarem que a obtenção do diploma é o objectivo final, esquecendo que depois do diploma há todo o resto da vida, com exames a cada passo. Não comprendo bem o que o autor quer dizer quando escreve que «  apesar da saída do país, todos os factores que caracterizam a comunidade portuguesa – gastronomia, cultura, língua portuguesa – se mantêm ». Está certamente a referir-se à nova emigração, porque o que caracteriza a « antiga » é : a capacidade de adaptação, a coragem, a força de vontade, a seriedade e a humildade... Acredito todavia que a nova emigração que é mais diplomada (?), e mais instruída que a das vagas anteriores, quanto à cultura, permita-me de não aderir. A aquisição da cultura vai muito para além dos bancos das escolas e das faculdades, onde se aprendem especialidades. A cultura é vasta como o Mundo.
A geração dos anos 60 aprendia francês desde a entrada no liceu e era de França que vinham a maioria das referências culturais.
Hoje quando é que se aprende a língua e cultura francesas em Portugal aonde até a nossa língua vai sendo abalroada por acordos ortográficos sem sentido?
Grande prioridade ao Inglês a tudo o que esteja mais perto do dólar !

Lastimo que os nossos jovens, como os anteriores, tenham de recorrer à expatriação, embora só por razões económias o que sempre torna a tarefa mais leve (se tiverem de regressar não é a prisão que os espera...) e desejo-lhes a maior sorte e felicidade. Estou mesmo certo que se tiverem as tais capacidade de adaptação, coragem, força de vontade, seriedade e humildade dos « antigos », vão dar-se bem por cá e mais tarde compreenderão que ao juntar uma cultura a outra cultura, não se fica com duas culturas, mas sim com uma cultura maior.
Aurélio Pinto

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